Quando a vistoria não sustenta a cobrança: análise de um caso real julgado pelo PROCON
Um cenário comum para muitas imobiliárias
Em vistorias de saída, é relativamente comum que sejam apontados problemas no imóvel e atribuída ao locatário a responsabilidade por reparos.
O conflito surge quando essa cobrança é contestada e a vistoria não consegue sustentar tecnicamente a imputação de responsabilidade.
Este artigo analisa um caso real levado ao PROCON, identificando onde a vistoria falhou, por que a cobrança foi afastada e quais lições práticas ficam para a imobiliária.
O contexto do caso
Na vistoria de saída, a imobiliária apontou:
-
portas de banheiro empenadas;
-
armários com estufamento;
-
deterioração do acabamento.
Os itens foram classificados como danos causados pelo uso inadequado do locatário, com cobrança integral para reparo e substituição.
O locatário contestou a cobrança administrativamente, levando o caso ao PROCON.
A base da cobrança apresentada
A cobrança se fundamentava em:
-
vistoria de entrada e saída com registros fotográficos;
-
descrição visual do estado dos itens;
-
comparação entre o estado inicial e final;
-
orçamentos de reparo.
Não havia, entretanto, análise técnica da causa dos problemas.
Onde a vistoria começou a falhar
Na análise do PROCON, ficou evidente que a vistoria:
-
descrevia o problema, mas não explicava sua origem;
-
não avaliava o tipo de material envolvido;
-
ignorava o ambiente de instalação (banheiro);
-
não considerava a exposição contínua à umidade;
-
não analisava o tempo de uso dos itens;
-
não diferenciava desgaste, vício construtivo e dano.
O registro visual não foi considerado prova suficiente.
A questão central: causa do problema
O ponto determinante para o PROCON não foi se o problema existia, mas por que ele existia.
Em itens instalados em ambiente úmido, como banheiros, é tecnicamente necessário avaliar:
-
compatibilidade do material com o ambiente;
-
ventilação do cômodo;
-
presença de umidade recorrente;
-
forma de instalação;
-
vida útil esperada do componente.
Sem essa análise, não é possível imputar automaticamente o problema ao locatário.
-
Uma vistoria técnica adequada teria avaliado:
tipo de material (MDF, MDP, madeira);
-
ambiente de instalação (banheiro);
-
ventilação natural ou mecânica;
-
frequência de uso do ambiente;
-
histórico do imóvel;
-
estado inicial e evolução do problema ao longo do tempo.
Na saída, isso permitiria:
-
identificar desgaste previsível em ambiente úmido;
-
apontar possível vício construtivo ou de especificação;
-
reconhecer danos reais apenas se comprovados.
O entendimento do PROCON
Na decisão administrativa, o PROCON entendeu que:
-
a existência do problema não comprovava mau uso;
-
não houve comprovação técnica da causa;
-
o ambiente favorecia deterioração natural do material;
-
a vistoria não estabeleceu nexo causal;
-
a cobrança não poderia ser mantida.
A cobrança foi considerada indevida.
O erro não foi cobrar — foi presumir
É importante destacar:
o PROCON não afastou a cobrança por proteger o locatário, mas por ausência de prova técnica.
Se houvesse laudo técnico fundamentado comprovando mau uso, a decisão poderia ser diferente.
O erro central foi presumir responsabilidade sem critério técnico.
Impactos do conflito para a imobiliária
Mesmo sem condenação judicial, o caso gerou:
-
desgaste institucional;
-
tempo excessivo da equipe;
-
insatisfação do proprietário;
-
perda de confiança no processo de vistoria;
-
risco de judicialização futura.
O custo do conflito superou o valor da cobrança.
O papel da vistoria técnica nesses casos
Uma vistoria técnica:
-
analisa a causa do problema;
-
diferencia desgaste, vício e dano;
-
fundamenta cobranças legítimas;
-
evita imputações indevidas;
-
protege a imobiliária perante órgãos administrativos.
Ela não impede cobranças —
ela evita cobranças indefensáveis.
Conclusão
Quando a vistoria não sustenta a cobrança, o problema não está no conflito —
está na ausência de critério técnico.
O PROCON não exige rigor excessivo.
Exige prova clara e fundamentada.
A vistoria técnica imparcial:
-
protege a imobiliária;
-
fortalece o proprietário;
-
reduz conflitos;
-
sustenta decisões corretas.
No fim, a técnica não escolhe lados — ela define responsabilidades com segurança.
⚠️ Nota Técnica Editorial ⚠️
Os conteúdos publicados neste blog têm caráter exclusivamente informativo e educativo, com o objetivo de difundir conhecimento técnico e jurídico sobre vistorias imobiliárias e prevenção de conflitos locatícios.
As análises apresentadas não substituem avaliação técnica individualizada, laudo pericial ou parecer jurídico específico, tampouco se destinam a orientar condutas operacionais de terceiros.
A metodologia de vistoria, critérios técnicos, padrões de análise e processos internos utilizados pela Pró Imóvel Vistorias constituem know-how próprio, desenvolvido com base em experiência profissional e validação técnica especializada, não sendo objeto de divulgação pública.
Cada imóvel possui características construtivas e condições específicas, devendo eventuais responsabilidades ser analisadas caso a caso, à luz da legislação aplicável e de avaliação técnica adequada.

